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Ortorexia nervosa: entenda a obsessão por alimentação saudável

O médico e terapeuta João Borzino explica como quadro pode levar a isolamento social, sofrimento físico e até desnutrição

Você conhece alguém com uma alimentação extremamente saudável e que deixa até de socializar por que no evento não vai ter a salada de folhas orgânicas e nem o doce funcional. Ela pode está sofrendo de ortorexia nervosa

Segundo o médico e terapeuta João Borzino, o transtorno é uma obsessão patológica com a qualidade do alimento – um padrão alimentar rígido baseado em crenças pessoais sobre “pureza” ou “saúde” que causa sofrimento psicológico, isolamento social e, paradoxalmente, prejuízos físicos, como desnutrição ou deficiências.

“Criado por Steven Bratman em 1997, o termo ainda não está reconhecido no DSM5 nem na CID10/11, mas é amplamente discutido em literatura científica.Diferente de anorexia ou bulimia, o foco não está na quantidade de comida, nem no controle de peso, mas sim na qualidade percebida da alimentação — idealizada como virtuosa ou moralmente superior”, destaca.

Segundo Borzino, estudos recentes apontam taxas elevadas de comportamento ortoréxico em grupos específicos:
• Em populações que praticam exercícios físicos com regularidade, a prevalência chegou a 55,3% segundo metaanálise recente.
• Em nutricionistas e estudantes de nutrição no Brasil, taxas de risco chegaram entre 87% a 89% em algumas amostras.

“De modo geral, estimativas em adultos variam entre 1% e 7% da população, mas os instrumentos de avaliação (como o ORTO15) ainda não são totalmente confiáveis como diagnóstico formal.Grupos vulneráveis incluem jovens adultos, profissionais da saúde (nutricionistas, médicos), pessoas com traços de perfeccionismo ou obsessivocompulsivos, bem como frequentadores intensos de redes sociais focadas em alimentação”, afirma o médico.

Neurobiologia: como age o cérebro?

O médico destaca que o diagnóstico Ortorexia é clínico, já que não existem exames para confirmar o transtorno.

“Embora não existam imagens cerebrais específicas para ON, sabemos muito com base em transtornos alimentares como anorexia e bulimia, frequentemente com padrões sobrepostos:
• Alterações nos sistemas da serotonina e dopamina, ligadas a ansiedade, controle e recompensa alimentar
• Padrões semelhantes aos de TOC (transtorno obsessivocompulsivo): ruminações intensas, ritualização da alimentação, angústia ao violar regras alimentares.
• Fatores genéticos e de vulnerabilidade (como predisposição a ansiedade ou perfeccionismo), ainda em estudo na etiologia.Portanto, ON parece surgir de interações entre neuroquímica (ansiedade, percepção de pureza), personalidade (perfeccionismo, culpa) e contexto sociocultural (idealização de estilo de vida saudável)”.

João Borzino afirma que por não ser uma condição oficial no DSM5, não existe protocolo padronizado. No entanto, experiências clínicas e literatura indicam abordagem interdisciplinar. Ele citou quais:
1. Avaliação nutricional: identificação de possíveis deficiências nutricionais (ex.: vitaminas, ferro, proteínas), retomada da variedade alimentar
2. Psicoterapia cognitivocomportamental (TCC): trabalhar crenças disfuncionais sobre alimentação, reduzir padrões ritualizados e rigidez, aumentar flexibilidade
3. Apoio psiquiátrico e medicação, quando houver comorbidades ansiosas ou depressivas, usadas como coadjuvantes, não como tratamento principal.
4. Abordagem interdisciplinar entre nutricionista, psicólogo e psiquiatra para garantir suporte nutricional, emocional e cognitivo sustentável.
A TCC costuma ser a base mais eficaz, sobretudo quando combinada com apoio nutricional. A medicação apenas complementa no tratamento de sintomas associados, como ansiedade ou compulsão.

O médico montou um questionário rápido para você saber se pode ter ortorexia:

Se você responder “sim” a três ou mais das frases abaixo, pode haver risco de comportamento ortoréxico. Procure avaliação profissional.
1. Você se sente angústiado ou culpado quando quebra suas próprias regras alimentares?
2. Dedica mais tempo planejando, organizando e pensando no que comer do que realmente aproveitando a refeição ou socializando?
3. Evita eventos sociais (almoços, festas) onde você não controla o que será servido?
4. Conhece várias informações sobre alimentação saudável e se sente superior ou virtuoso por seguir seus próprios padrões?
5. Seu humor dependeria da percepção de manter sua dieta “pura” (se falhar, seu valor pessoal diminui)?
6. Já apresentou sinais de desnutrição, fadiga, anemia, isolamento, perda de peso não intencional?
O que fazer se o perfil for sugestivo:
• Procure avaliação com psiquiatra ou psicólogo especializado em transtornos alimentares.
• Seja acompanhado por nutricionista com abordagem restaurativa — que reintroduza variedade sem culpa.
• Inicie TCC específica para transtornos alimentares, com foco em flexibilidade cognitiva e emocional.
• Se houver ansiedade ou depressão significativa, a medicação pode ser parte do plano, em conjunto com psicoterapia.

“Ortorexia é um problema crescente sob o véu do ideal de “comer bem”. Ao mesmo tempo que merece conscientização, requer diagnóstico e tratamento profissional estruturado. Reconhecer o padrão obsessivo, compreender sua base neurológica e emocional, e buscar tratamento interdisciplinar são passos fundamentais para a recuperação”, conclui.