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TDAH, Autorregulação e o Verdadeiro Papel do Cérebro Executivo

Por Dr. João Borzino

Muita gente pensa que o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é só uma questão de distração ou agitação. Mas o que a ciência mostra – e é nisso que venho trabalhando há mais de 40 anos – é que o TDAH é, na verdade, um transtorno de autorregulação. É sobre como o cérebro com TDAH tem mais dificuldade para gerenciar a si mesmo ao longo do tempo.

O que é autorregulação, afinal?

Autorregulação é a capacidade de você pausar, refletir, resistir a impulsos e agir com base em metas futuras. É o que te faz levantar cedo para ir à academia mesmo com preguiça, ou guardar dinheiro em vez de gastar tudo agora. Pessoas com TDAH têm dificuldade justamente nisso: frear, planejar, priorizar e manter o foco no que importa a longo prazo.

Isso está diretamente ligado ao que chamamos de funções executivas – o conjunto de habilidades que o cérebro usa para controlar o comportamento, as emoções e os pensamentos. Pense nelas como o “CEO” da sua mente. Com TDAH, esse CEO é impulsivo, disperso e vive no agora.

Por que isso acontece?

A neurociência mostra que o TDAH está ligado a diferenças no desenvolvimento de áreas do cérebro responsáveis pelo controle executivo, como o córtex pré-frontal. Não é falta de esforço ou preguiça – é biológico. E mais: não afeta só a atenção, mas toda a forma como a pessoa lida com o tempo, com regras, com consequências futuras.

Ok, e na prática?

Pessoas com TDAH:

Têm mais dificuldade em iniciar tarefas chatas, mesmo sabendo que são importantes.
São mais propensas a agir por impulso, sem pensar nas consequências.
Se distraem facilmente, não por falta de inteligência, mas por dificuldade em manter o foco no que não é imediatamente interessante.
Tendem a esquecer compromissos, prazos, objetos.

Mas veja bem: essas pessoas também são mais rápidas para agir, mais criativas em situações novas, e muitas vezes se destacam em ambientes que valorizam intensidade, improviso e resolução de problemas sob pressão.

O lado positivo: TDAH não é ausência de capacidades, é um perfil diferente

A questão nunca foi sobre ter ou não habilidades, mas como essas habilidades são gerenciadas. Um adulto com TDAH pode ser genial em resolver problemas de forma criativa, mas se perde na organização do dia a dia. Uma criança com TDAH pode ter ideias brilhantes, mas sofre para esperar sua vez ou seguir o ritmo da sala.

Com tratamento certo (medicação, terapia, mudanças de rotina), essas dificuldades podem ser controladas – e os pontos fortes, potencializados.

Tenho TDAH? Um teste rápido (não diagnóstico, mas indicativo)

Responda sim ou não para cada uma destas afirmações. Se você disser “sim” para quatro ou mais, vale a pena procurar um profissional para investigar.

1. Eu frequentemente começo tarefas e me distraio antes de terminá-las.
2. Tenho dificuldade em me organizar, cumprir horários ou lembrar compromissos.
3. Atuo por impulso e muitas vezes me arrependo logo depois.
4. Me sinto mais produtivo em situações de pressão do que com tempo de sobra.
5. Me esforço para manter o foco em reuniões, leituras ou conversas longas.
6. Minha mente vive “pulando” de um pensamento para outro.

Se você se viu nessas frases, saiba: TDAH não é falha de caráter. É um jeito diferente de funcionar – com desafios, sim, mas também com vantagens quando bem compreendido.